o burnout - sophie kinsella

Depois de receber tantos e-mails de cobrança — daqueles que chegam com dois pontos de exclamação vermelhos e agressivos — sua pálpebra começa a tremer. Vem a vontade de chorar, um misto de ansiedade só de precisar interagir com o “programa de felicidade” da empresa. Ela já perdeu o prazer nas pequenas coisas da vida: fazer um jantar para si mesma, assistir a séries ou até esfregar uma genitália na outra. Coisas cotidianas perderam completamente a graça.

Sasha trabalha na Zoose, uma startup de viagens que tem estado na boca de todo mundo ultimamente. Ela é diretora de promoções de uma área que cobre 14 territórios. O cargo exige muito, especialmente porque Sasha está sobrecarregada e não há funcionários suficientes para suprir as demandas.

Uma coisa que achei interessante nessa leitura foi o tal “programa de felicidade” criado pela empresa para monitorar se os funcionários estão satisfeitos. Porém, o programa acaba se tornando algo tóxico, já que existe uma cobrança constante para que os funcionários façam login e relatem como estão se sentindo.

Em meio a um surto, Sasha decide que quer virar freira e aderir ao celibato. É justamente nesse momento — ao literalmente dar de cara com a parede — que ela percebe que precisa urgentemente de uma pausa, depois de passar o último ano inteiro totalmente dedicada à empresa sem tirar férias.

Esse foi o meu primeiro contato com a escrita da Sophie Kinsella, e isso torna tudo ainda mais triste para mim, porque a autora faleceu este ano.

Uma das coisas que mais me agradaram na leitura foi a forma como a mãe de Sasha fez de tudo para ajudá-la, inclusive recomendando Rilston Bay, lugar para onde viajavam todos os anos durante a infância. Ela até preparou uma lista de atividades em um aplicativo, com pequenas tarefas para Sasha fazer: meditação, yoga, aquarela e até beber suco verde — algo que ela odiou.

Achei interessante acompanhar o esforço gradual de Sasha para seguir a lista. Nem todos os dias eram perfeitos, e era perceptível o quanto ela tentava não pensar em trabalho ou em qualquer coisa relacionada à rotina corporativa.

Nos primeiros capítulos, ela ainda estava lidando com a ausência da rotina frenética e daquela ansiedade incessante.

Teve uma parte que ficou um pouco confusa para mim: Sasha comenta que ela e a família nunca mais voltaram para Rilston Bay depois do diagnóstico do pai, mas a autora não especifica exatamente qual foi esse diagnóstico. Poderia ser qualquer coisa, e isso me deixou curiosa. Acho que teria sido interessante explorar melhor o impacto da doença — e posteriormente da morte dele — na vida da mãe, de Sasha e da irmã.

Sobre o relacionamento dela com Fin, gostei muito da forma como a relação se desenvolveu de maneira natural. Uma coisa que sempre me agrada em certas leituras é acompanhar o casal se conhecendo aos poucos e construindo intimidade gradualmente. 

Também gostei bastante da forma como eles começaram a resgatar memórias da infância e descobriram que já se conheciam sem perceber. A conexão deles com o antigo instrutor de surfe era muito fofa, assim como o esforço dos dois para recuperar as lembranças que tinham com ele.

Sobre Sasha voltar a trabalhar, achei tudo muito rápido. Para mim, isso aconteceu cedo demais. Ela sugere várias vezes que Fin faça terapia para lidar com seus traumas, mas acredito que também teria sido interessante vê-la buscando ajuda psicológica. Em menos de poucos meses ela já estava voltando a atividade corporativa e assumindo um cargo de liderança maior ainda. 

Sobre o burnout de Fin, sempre que Sasha perguntava sobre o assunto, ele não dava muitos detalhes. Ficava claramente desconfortável, o que fazia parecer que havia algo mais acontecendo. Ao longo da trama, descobrimos que ele estava ajudando uma pessoa e acabou assumindo as demandas dela para que os colegas de trabalho não descobrissem sua condição. No fim, tudo aconteceu por causa de um mal-entendido. Ainda assim, confesso que fiquei um pouco confusa com a forma como isso foi desenvolvido.

No começo, Fin dava respostas bastante passivo-agressivas, e suas atitudes faziam parecer que ele era apenas um grosseirão que não sabia lidar com as pessoas. Porém, conforme vamos conhecendo melhor o personagem, percebemos que muitas dessas situações surgiram por conta de pequenos mal-entendidos.

Às vezes, o que lemos na sinopse não tem nada a ver com a forma como o personagem realmente será desenvolvido ao longo da trama.

Confesso que esperava mais do final. Acho que poderia ter tido pelo menos um epílogo. Durante boa parte da leitura, imaginei que um deles compraria ou investiria na pousada — pelo menos foi o caminho que fez sentido na minha cabeça.

Apesar de ser um clichê previsível, é um livro leve que aborda um tema extremamente sério: o burnout no mundo corporativo. Se você procura uma leitura rápida e leve, recomendo bastante. E, para quem não gosta de cenas +18, ele é perfeito.